20150526

CORDEL: A Luta de Zé do Caixão com o Diabo (Manoel D'Almeida Filho)

A Luta de Zé do Caixão com o Diabo
Manoel D'Almeida Filho
Peleja de Zé do Caixão com o Diabo
Há muita gente no mundo
Que não leva a vida à sério
Não acredita em fantasma,
Assombração nem mistério,
Porque nunca à meia noite
Entrou em um cemitério.

Porque também nunca teve
O Satanás pela frente
Cuspindo carvão em brasa,
No meio de cinza quente,
Voando fogo dos olhos
E brandindo o seu tridente.

Esse nunca viu fantasma
Nem tampouco necessita …
Outro às vezes obrigado,
A junção o precipita;
Força a fazer coisas que
Nem ele mesmo acredita.

Por isso Zé do Caixão,
Um estranho personagem,
Tem no "mundo dos espíritos",
Mostrado a sua coragem,
Filmando para o seu público
Toda espécie de visagem.

Mas numa dessas filmagens,
Antes do cantar do galo,
Zé do Caixão "enrolou-se",
Quase que vai no "embalo",
Dentro do cemitério
O Satanás quis levá-lo.

Houve grande discussão,
Para começar a guerra,
Depois os dois se pegaram,
Tremia da baixa à serra,
Na maior luta que o Diabo
Travou em cima da terra.

A discussão foi tremenda,
Para a luta começar,
Um desafio assombroso
De fazer arrepiar,
Uma briga de gigantes,
Vamos ver quem vai ganhar.

Zé do Caixão uma noite
Foi direto a um cemitério
Fazer uma evocação,
No seu palco de mistério,
Quando bateu meia-noite,
Deu-se aquele encontro sério.

Zé do Caixão evocou
As almas embrutecidas,
Somente aquelas que tinham
Feito mal nas suas vidas,
Chamou até Satanás
O pai das almas perdidas.

Satanás chegou depressa
Disse: - Pronto, meu amigo,
Vá dizendo o que deseja,
Se acaso corre perigo,
Estou aqui resolvido
A levá-lo hoje comigo.

Zé do Caixão respondeu:
- Comigo você não pode,
Deixe de tanta ousadia,
Mofino, cara de bode,
Nojento dos pés de pato
Não dança no meu pagode.

Satanás disse: - Que é isso,
Caça-defunto, bochudo,
Você vai de qualquer jeito
Ou sorrindo ou carrancudo,
Vivo desmaiado ou morto,
Com mala, caixão e tudo.

Zé disse: - Meu camarada,
Você vai entrar na taça,
Com essas pontas de boi,
Tá pensando que eu sou vaca?
Quebro-lhe os chifres de pau,
Corto-lhe o rabo de faca.

Satanás disse: - Não fale
Dos meus chifes nem do rabo
Que chegando no inferno
O seu orgulho eu acabo,
Ponho-lhe estes "enfeites"
Para você virar diabo.

Zé respondeu: - Essa não,
Isso comigo não vai,
Coloque os seus ornamentos,
Se não esse uso cai,
O rabo na sua mãe
E os dois cifres no seu pai.

O Diabo disse: - Um cauda
Não defeitua ninguém,
Eu não tenho mãe nem pai,
Sogro nem sogra também,
Porém duas pontas grandes
Em você acentam bem.

Zé disse: - Eu acho melhor
É que você me respeite,
Deixe a minha vida em paz,
Esse meu conselho aceite,
antes que eu o faça beber
Duzentos tonéis de azeite.

Satanás disse: - Essa agora
É proposta provocante,
Porque não estou doente
Nem sou tão extravagante,
Dê isso à sua vovó
Que precisa de purgante.

Zé disse: - Você agora
Pisou na ponta da vara,
Eu não sei aonde estou
Que não lhe arrebento a cara,
Deixando uma ferida
Que com cem anos não sara.

Satanás disse: - Você
Se fia nesses garranchos
Que estão sobre essas covas,
Atavessando outros ganchos,
Porém isso não faz medo
A quem domina mil ranchos.

Zé disse: - Cabra safado,
Não zombe do Santo Lenho,
Eu me fio em minha força
E na coragem que tenho,
Em todo canto da terra
O meu papel desempenho.

O Diabo disse: - Você
Comigo não se confunda
Você só conheçe a terra,
Eu conheço a baixa-funda,
Da terra até o inferno
A caverna mais profunda.

Zé respondeu: - Satanás,
Você não me faz pavor,
Não temo a sua canalha
Nem o seu reino de dor,
Faço medo a todo mundo,
Eu sou o rei do terror.

Satanás disse: - Pois bem,
Você vai ser compensado,
Vou conduzi-lo comigo,
Já está tudo acertado,
Lá no inferno é que tem
Terror para ser filmado.

Lá você vai encontrar
O mais agradável jogo,
Muitos milhões de esqueletos
Vivos que não fazem rogo
Dançando uns com os outros
Nas labaredas de fogo.

São todos dessas mulheres
Que mesmo sendo casadas
Deixam maridos e filhos
E vão dançar abraçadas
Com outros homens nos bailes
Para serem machucadas.

Tem mais milhões e milhões
De esqueletos recurvados,
Todos de língua de fora
Com dois palmos pendurados
Balançando com dez quilos
Em cada língua amarrados.

São todos dessas pessoas
Que falam da vida alheia,
Fuxicam, levantam falso,
Tem cada língua tão feia,
Tão criminosa e horrível
Que cresce até légua e meia.

Existem outros milhões

Parecem corpos carnais,

Dentro de um lago de fogo,

São filhos maus para os pais,

Falsos, desobedientes,

Nos castigos infernais.

Assim tem diversos quadros
De choro e de muita dor,
Lugares aonde pode
Ser visto o maior horror,
Lá você pode filmar
Toda espécie de terror.

Zé disse: - Muito obrigado,

O seu ponto é negativo,

Na terra mesmo eu encontro

Toda espécie de motivo

Para fazer os meus filmes,

Enquanto eu estiver vivo.

Satanás aborreceu-se
Com toda ira infernal
E disse: - Você agora
Ou vai por bem ou por mal,
Já que não pode comigo
Numa luta corporal.

Zé do caixão disse: - Vamos

Ver dos dois quem pode mais,

Parta para me pegar

Com as forças infernais

Que eu vou me defender com

Meus poderes naturais.

Satanás não conversou
Partiu para pegar Zé
Que deu um pulo de costas,
Firmada na sua fé,
Bem na barriga do Diabo
Meteu a ponta do pé.

Satanás saiu rolando,

Botou as mãos na barriga,

Levantou-se e disse: - Zé,

Feiticeiro de uma figa,

Segure-se, aperte o cinto,

Quero ver se você briga.

Apoiado no tridente
Partiu a Zé do Caixão,
Zé abaixou-se e o Diabo
Passou como um furacão
Bateu numa catacumba
Quase se lasca no chão.

Zé deu uma gargalhada

Vendo o Capeta estirado

E disse: - Você se acaba

Satanás velho, safado,

Caindo assim como sapo

Ó Diabo mole danado.

O Satanás levantou-se,
Rodopiou sobre um pé,
Pulou de braços abertos
Caiu em cima de Zé
Que por baixo imprensado
Quase que perdia a fé.

Porém encolheu as pernas,

Fez o espinhaço duro,

Deu um balão no Capeta

Que voou como um moturo

Por cima das sepulturas,

Foi cair no pé do muro.

Batendo os chifres gritou:
- Zé você me desaponta,
Essa queda foi danada
E se me quebrasse uma ponta,
Eu ia pô-la de ouro
E você pagava a conta.

- Só dessa forma você

Deixaria de ser brabo,

Se quebrasse as duas pontas,

Depois arrancasse o rabo,

Passaria a ser homem,

Nunca mais seria Diabo.

Satanás disse: - Porém,
Quero ser sempre inimigo
Caçando os maus pela terra,
Cada um é meu amigo,
Se eu ficasse bom, vocês
Nunca teriam castigo.

Zé disse: - Você parece

Que está falando em mau

E descansando da queda,

Com medo de levar pau,

Caia no campo da honra

Para eu fazer um sarau.

Satanás rapidamente
Pior que um raio partiu,
Zé meteu-lhe o pé no bucho
Que o bicho preto subiu,
Porém no ar se virou,
Em cima de Zé caiu.

Zé que ali não esperava

Uma rapidez daquela,

Tombou e sentiu o Diabo

Apertando a sua goela

Deitado por cima dele

Pisando em cada canela.

Satanás disse: - Eu agora
Faço de você café,
Vou torrá-lo no meu caco,
Aproveitando a maré;
Começou cuspindo brasa
Queimando as barbas do Zé.

Zé do Caixão apanhando

Agora a torto e a direito

Com Satanás montado

Bem em cima do seu peito,

Sempre com fé procurou

Sair-se de qualquer jeito.

Lembrou-se do karatê,
Deu um golpe com a mão
No gogó do Bicho-preto,
Com tanta disposição
Que o Diabo caiu tossindo,
Cuspindo brasa e carvão.

Nisso Zé aproveitou-se

Enquanto o Bicho espirrava,

Tossia e botava fogo

Que até sufocava,

Deu-lhe outro golpe na nuca,

Quase o pescoço apartava.

Desse golpe o Satanás
Rápido recuperou-se,
Zé descuidado não viu
Quando o bicho levantou-se,
Empurrou-o, deu-lhe uma queda
Em cima dele montou-se.

Zé novamente apertou-se

Somente por um momento

Porque encolheu-se todo

Deu-lhe um balão violento

Que o Diabo subiu rodando
Parecendo um cata-vento.

Desaprumou-se nos ares,
Tonto, sem força de ação,
Abriu as asas porém
Não encontrou direção,
Desceu ainda rodando,
Meteu os chifres no chão.

Levantou-se, sacudiu-se,

Mostrando a maior carranca

E disse a Zé do Caixão:

- Você hoje quebra a banca,

Vai se parar no inferno

Ou vai ou o rabo arranca.

Dizendo assim deu um grito:
- Compadre Forrobodó,
Convoque a turma de choque,
A negra de um peito só,
A mãe de Calor-de-Fogo
E a preta do Bendengó.

Traga a negralhada toda

E venha muito ligeiro

Que eu já levei mais pancada

Do braço de um feiticeiro,

Que nem bombo de Xangô

Ou burro de cachaceiro.

Venha compadre, depressa,
Não me deixe morrer só
Que o macumbeiro malvado
Já deu no meu rabo um nó,
Deixou-me mais apertado
Do que preá em queixó.

De fato, há poucos momentos,

Zé pôde pegar o Diabo

com toda rapidez deu-lhe

um nó bem feito no rabo,

Ele gritava dizendo:

- Com esta agora eu me acabo!


Enquanto Zé do Caixão
A malvadeza fazia,
Puxando a cauda, apertava
O nó, o Diabo gemia
dava pulo e dava grito
Que no inferno se ouvia.

- Compadre, venha depressa

Enquanto o tempo não passa,

Eu estou me derretendo

O corpo virando em massa

Se você não chegar logo,

Não acha nem a fumaça.

Sendo ouvido no inferno
Esse angustioso apelo,
Os diabos todos corriam,
Era o maior desmantelo,
Nunca se viu no inferno
Tanta pressa e atropelo.

Convidando os mais distantes,
As sirenes alarmavam,
Dentro de poucos segundo
Mais de vinte mil chegavam,
Sabendo o que aconteceu,
Para terra se mandavam.
Comandava o batalhão
O general Caifaz,
Cão-coxo vinha a seu lado
Servindo de capataz
Montado na égua velha
Da mãe do rei Satanás.

Acompanhavam também,
Tição, Tinhoso e Canhoto,
Capa-verde e Pé-de-pato,
Mofento, Olho-de-boto,
Parafuso, Cafuçu,
Catapora e Capiroto.

Bexiga-preta e Canguinha,
Trupezupe e Bigodeira,
Bajé, Tangeriça e Cambota,
Mata-calado e Sujeira,
Sanguessuga e Mosca-tonta,
Tráz-cá e Goteira.

Vira-volta e Boca-insossa,
Lambe-lambe e Corta-dedo,
Rompe-ferro, Arranca-rabo,
Cotó e Cachorro-azedo,
Tromba-suja e Caboré
Mofino e Quebra-segredo.

Faísca, Raio e Pacaia,
Futrica, Não-sei-que-diga,
Quebra-faca e Mata-sete,
Mau-olhado e Dou-te-figa,
Cachimbo e Arranca-tampa,
Peitica e Pega-barriga.


Marmim, Motuca e Mosca,
Arranca-toco e Macumba,
Cão-de-bico e Mata-burro,
Fura-olho, Catacumba,
Topa-murro, Quebra-côco,
Gaita, Cuíca e Zabumba.

Bruxaria e Bebe-sangue,
Caranguejeira, Lacrau,
Cascavel, Surucucu,
Carcará e Bacurau,
Onça-pintada e Macura,
Violino e Berimbau.

Tacape, Cordão-de-saia,
Arranca-prego, Corisco,
Quebra-canga, Pirilampo,
Pé-de-peia, Junta-cisco,
Espalha-brasa, Mazorca,
Tapa-boca e Apaga-risco.

Bebe-molho e Maçarico,
Vento-mau, Língua-de-trapo,
Chifre-de-porca e Sarampo,
Ponta-pé, Rabo-de-arraia,
Atadura, Esparadrapo.

Cataclisma e Sapiranga,
Cotoco e Saia-godê,
Rasga-tanga e Carrancismo,
Cata-pulga e Fabelê,
Bode-preto e Cabra-morta,
Fuxico e Cão-é-você.

São estes os poucos nomes
Que nós temos na lembrança,
Vamos ver Zé do Caixão,
Enquanto essa tropa avança,
Apertando o Satanás
Que pulando não descansa.

Zé achava muita graça
No Diabo se lastimando,
ele pegado na cauda
De vez em quando puxando,
Enquanto Satã saltava
Mais o nó ia apertando.

Estava tão destraído,
O nosso Zé do Caixão,
Que não viu Forrobodó
Entrando pelo portão
Com a negraria atrás
Comandando o batalhão.

Satanás disse: - Você
Agora solta o meu rabo
E vai saber quanto vale
Dar nó na cauda do Diabo,
Meu batalhão vem chegando
De quem nunca foge um brabo.

Zé do Caixão disse: - É mesmo?
Deixe essa tropa chegar,
Só assim terei muitos
Chifres para arrebentar,
Negros para dar pancadas
E rabos para amarrar.

Nisso levantou a vista,
Viu negro por todo o lado,
Satanás deu um grito:
- Agora, cabra safado,
Diga que não vai comigo
Para o inferno amarrado?

Zé disse: - Só creio vendo
e deu um puxão sem dó
Na cauda do Satanás
Que vergou como um cipó,
Apertando o laço que
Não há que desate o nó.

O Satanás deu um berro
Que estremeceu toda a terra,
Catacumbas se racharam,
Perto lascou-se uma serra,
Os diabos todos partiram,
Aí começou a guerra.

Pularam em cima do Zé
Mais de dois mil de uma vez
Para esmagá-lo porém
Zé teve mais sensatez,
Na sombra da negraria
Saltou com mais rapidez.

Batendo uns com os outros,
Cairam todos no chão,
Por cima do Satanás
Que imitando a um fogão
Vomitou lavras de fogo
Que parecia um vulcão.

Com esse pulo de Zé,
Deu-se a maior confusão,
Um diabo pegava o outro
Espatifiva no chão,
Pensando ter arrebentado
O nosso Zé do Caixão.

Enquanto Zé foi cair
No pés de Forrobodó,
Vendo o perigo abaixou-se
Pegou-o por um mocotó,
Jogou-o em cima das pontas
Da negra de um peito só.

Foi quando Caifás gritou:
- Negrada pega o bandido
Que alé de ser feiticeiro
É por demais atrevido,
Se não pudermos vencê-lo
Nosso chefe está perdido.

A negralhada caiu
Em cima de Zé, sem dó,
Cacete, vara e tridente
Batiam num homem só,
A poeira levantava
Cobrindo tudo de pó.

Zé debaixo de cacete
Não respeitava ninguém,
Tanto levava pancada
Como batia também,
Mas enquanto dava uma
Recebia mais de cem.

Quando Zé pegava um negro
Dava-lhe um soco na venta
Jogava em cima dos outros
Caíam trinta, quarenta,
Enquanto nas suas costas
Apareciam noventa.

Zé do Caixão se virava
Na frente da negraria,
Pancada por todo o corpo
Era só o que recebia,
Pulava mais que um macaco
Na maior pancadaria.

Zé já pensava consigo:
- Agora mesmo me acabo,
Se Jesus não me valer …
Enquanto gritava o Diabo:
- Agora você me paga
O nó que deu no meu rabo.

Você agora na terra
Nunca mais filma terror,
Vai ser levado comigo
Lá não me peça favor,
Vai pagar tudo o que fez
Num oceano de dor.

Zé respondeu: - Me parece
Que você enlouqueceu,
Quer me levar pela força
Por não saber quem sou eu
Nem que existe um poder
Muito maior que o seu.

O Diabo disse: - Não quero
Que essa lembrança me dê,
Eu sou rei, tenho coroa
E lhe respondo: -Por que
Eu tentei o Salvador
E não carrego você?

 Zé respondeu: - É porque
Você foi buscar d'Ele,
Na intençao de vencê-Lo
Mas foi vencido por Ele
E não pode me levar
Porqueeu confio nEle.

Dizendo isso deu um pulo
Caiu no pé de uma cruz,
Pegou-a dizendo: -  Achei
A espada de Jesus
Para acabar com os diabos
Que vivem sem ver a luz.

Zé do Caixão levantou
A cruz e ficou brandindo,
Só com o vento do lenho
Os negros iam caindo,
Botando fogo, espirrando
Cuspindo brasa e tossindo.

Esses eram aqueles anjos
Do Paraíso jogados
Nas profundezas do abismo
Mas os diabos batizados
Disseram: - Não temos medo
Desses garranchos cruzados.

Assim dizendo partiram
Com vontade de vencer
Mais de setecentos negros
Todos queriam bater …
Porém Zé baixou a cruz
Só ouvia negro gemer.

Nas primeiras cacetadas,
Quase todos resistiam,
Enquanto uns avançavam
Outros caindo gemiam,
Uns recuavam com medo
Porém outros investiam.

Zé do Caixão manejava
A cruz com disposição,
Só via negro caindo
Embolando pelo chão,
Outros correndo assombrados
Atravessando o portão.

Porém enquanto lutava,
Zé do Caixão recebia
Pancada de todo o lado,
Como um leão resistia,
Já vendo a hora cair,
Todo o corpo lhe tremia.

Também porque nessa altura,
Zé sentiu a desvantagem,
A cruz perdeu dois braços,
Os negros com mais coragem
Partiram para vencê-lo
Aproveitando a vantagem.

Zé continuava a luta
agora dando estocada
Porque o tronco da cruz,
Somente de dar pancada,
Tornou-se como um espeto
com uma ponta aguçada.

Em poucos minutos tinham
Mais de cem negros varados,
Se torçendo pelo chão,
Outros de chifres quebrados,
Pernas, braõs, dentaduras,
E só corpos bem machucados.

Porém os que estavam bons
Avançavam como loucos
Batendo em Zé do Caixão
Com pedras, com paus, com tocos,
Numa zoada tão grande
Que já tinham vários roucos.

Contudo continuava
Essa batalha sangrenta
Quando Zé espetava um
Apareciam quarenta,
Zé de tanto levar pau
Botava sangue da venta.

Foi quando num salto brusco,
Rápido como um corisco,
Caiu nos pés de outra cruz,
Ainda correndo risco
Passando a mão encontrou
Um cordão de São Francisco.

Zé mais animado disse:
- Agora não vejo brabo,
Achei a corrente que
Serve para amarrar o diabo,
Vou amarrar um por um
Quebrar chifre e cortar rabo.

Enquanto Zé conversava,
Um negro se destacou,
Partiu pior que uma fera,
Zé fez laço e voou,
Laçado o bicho pulando
Bem nos pés de Zé tombou.

Zé pôs-lhe um pé no pescoço
E disse: - Moleque agora
Você vai me pagar tudo
Ou o seu pescoço se tora,
Mais de dois metros de língua
O negro pôs para fora.

Zé deu-lhes umas cacetadas
e depois pisoteou-o,
Dançando por cima dele,
Pouco a pouco esmigalhou-o,
Depois de todo quebrado
No meio dos outros jogou-o.

Com isso os negros disseram:
- Agora ninguem aguenta
Porque aquela corrente
No lugar que bate esquenta,
Queima mais do que urtiga,
Arde mais do que pimenta.

Zé vendo a moleza deles
Porque nenhum mais não veio,
Pulou por cima do grupo
E foi cair bem no meio,
Meteu o crodão nos negros,
Fez um esbandalho feio.

Tinha negro que corria,
Não acertava o portão,
Como um louco disparado,
Batia no paredão,
Isso por ter recebido
Só o vento do cordão.

Com cinco minutos Zé
Não achava em quem bater,
Só havia pelo chão
Quem não podia correr,
Chorando, se lastimando,
Fazia pena se ver.

Agora mais descansado,
Zé começõu nessa hora
A rezar o Santo Ofício
Da Virgem Nossa Senhora,
Enquanto muitos moleques
Ainda esperavam fora.

Zé continuou rezando
Aquela santa oração,
No "deus salve o relógio",
Houve uma grande explosão,
Foi uma chuva de negros
Que tapou a amplidão.

Nessa hora Zé sentiu
Que o problema era mais sério,
Uma catinga de enxofre
Insensou o cemitério,
Dando uma prova robusta
Do fim daquele mistério.

Zé deixou o campo santo
Já vendo o clarão do sol,
As nuvens brancas, douradas,
Cercando todo o arrebol,
Caminha ouvindo o canto
Do saudoso rouxinol.

Assim foi Zé do Caixão
Levado a mais outro drama
Misterioso, terrível,
Embora fosse na cama,
Isso porque foi em sonho,
Deus dá um mundo risonho
A quem só por Ele chama

Cruz e Souza (Daniel Serravalle de Sá)

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João Cruz e Sousa (1861-1898) is the poet who introduced Symbolism in Brazil. He is considered the greatest black poet in Portuguese language. Cruz e Sousa dealt with themes related to death, existence of an immortal soul, voluptuous sex. These themes were represented by images which dealt with, transparency, ghostly apparitions, light and darkness. Born in Desterro (Florianópolis) he suffered inteletual and racial isolation culmination with his tragic death in Rio de Janeiro.

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William Hogarth (Daniel Serravalle de Sá, 2008)

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William Hogarth

Witty, satirical, subversive and hugely talented, William Hogarth (1697-1764) remains one of the most multi-faceted and innovative artist from the eighteenth century. His work was strikingly modern and confronted subjects and themes such as the city, sexuality, manners, crime political corruption, charity and patriotism.
His paintings are remarkable and the variety of his output range from elegant conversation pieces to salacious brothel scenes. Among his most famous work are:Gin LaneBeer StreetA Harlot's Progress (6 plates, 1732) and A Rake's Progess (8 plates,) . Britain's first truly modern artist his works fostered and inspired the gothic atmosphere that was about to emerge.

William Beckford (Daniel Serravalle de Sá, 2008)

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William Beckford


O interesse pelo Oriente e a representação do "outro" haviam se tornado populares na Europa com a tradução francesa de Les Mille et une Nuits no começo de 1700, seguida da publicação de As Cartas Persas (1721) de Montesquieu e das aventuras de Zadig (1747) e Candide (1759) de Voltaire. Fascinado pelo lado mais extravagante do Oriente, o aristocrata inglês William Beckford investiu numa representação mais luxuriante de um déspota árabe para criar o seu infernal califa Vathek (1786). Escrito originalmente em francês, o romance de Beckford recriou fantásticos cenários orientais dedicados à apreciação sensualista. As imagens dos cinco palácios do califa (The eternal or unsatiating Banquet; The Temple of Melody, or The Nectar of the Soul; The Delight of the Eyes, or The Support of Memory; The Palace of Perfumes e The Retreat of Mirth or The dangerous) são descrições representativas desse projetado epicurismo e autoritarismo oriental. Apesar de o seu discurso freqüentemente se revestir de aspectos estereotipados do Oriente, pois seu califa é praticamente um bufão, Beckford abordou uma procura faustica pelo oculto, representou as paixões desmedidas e enfocou o estrangeiro/aristocrata como corrupto e ameaçador, caracterizando um romance gótico-exótico.

Ann Radcliffe (Daniel Serravalle de Sá, 2008)


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When The Italian (1797) first came out, it soon achieved a huge popular success. Its publication contributed to consolidate Ann Radcliffe's celebrity, but previous glory was already conferred to the lady known as 'Queen of Romance'. For this novel, considered by some the roof and crown of her work, Mrs. Radcliffe received the sum of 800 pounds, a substantial amount for the time and significantly more than any other novelist was being paid. 'The Great Enchantress', as she was also known, rejoiced then in a comfortable position. She was an established affluent writer, acclaimed by the public and famous for her captivating books.
Following her first novel, The Castles of Athlin and Dunbayne (1789), Ann Radcliffe published A Sicilian Romance (1790), which was regarded by Sir Walter Scott as the first English poetical novel. This was succeeded by The Romance of the Forest (1791). Then came The Mysteries of Udolpho (1794), upon which her literary reputation greatly rests; it is regarded as a masterpiece of the genre.
Ann Radcliffe seemed to be a rare case of pleasing both public and critics. She often received favourable attention from the reviewers who approved her 'correctness of sentiment', her 'elegance of style' and 'proper characterisation'. This reverence towards her work was due to a postulation of conventional ideals amidst an uproar of new ones. This stand was much valued by traditional parties of that English society. Mrs. Radcliffe was quite conservative in her views, she was not a writer who aimed at questioning the established order, and by the end of her stories she would have conveyed a message of bourgeois moral, value and domesticity, according to the 18th century historical understanding.
However, this mannerly veneration of her novels was not an unanimous practice. Some aspects of her style disappointed the critical reception and were severely scrutinised by the faultfinders. Instead of praising, they alluded to the fact her latter literary production was inferior to the former. Opposing criticism pointed out her formulas of 'explained supernatural' were growing tiring and predictable from overuse. Essays published in literary magazines stated her 'suspense technique' aroused the reader so high that, in the outcome, it could not fulfil expectations. It was also noted in these reviews her talent for description was 'exhaustive' and 'excessive'. Fred Botting points out the ambivalence concerning this matter: "These criticisms of the novel's excess point to a contradiction between style and project of the novel which as to warn against the danger of excess". Nevertheless, in the turn of the18th century Mrs. Radcliffe's books were indisputable best sellers. She had become the most read author of her time, positively excelling at landscaping painting and at portraying villainies.
She was born Ann Ward in 1764, the very year Sir Horace Walpole was publishing The Castle of Otranto. Her father, William Ward, was a haberdasher in London, though he and his wife had contacts in artistic circles. When her family moved to Bath (1772), she may have attended a school run by Sophia and Harriet Lee and been influenced to write gothic fiction. In 1787, she married the lawyer William Radcliffe, who later in life became proprietor of English Chronicleand who is believed to have encouraged her in writing ventures. From 1789 to 1797 she wrote the works that made her a respected novelist and poet. However, Ann Radcliffe interrupted her career at this point and never, herself, published a book again. She withdrew from the literary scene and lived a secluded life.
Her literary production include more titles, still, they made little success when compared to the novels previously mentioned. Mrs. Radcliffe was a travel enthusiast and wrote a book of her tour through Holland and Germany, A Journey Made in the Summer of 1794…, published in 1795. Gaston de Blondeville was written in 1801, but only published posthumously in 1826. Earlier on, Ode to Terror (1810) was published, in which it was declared that Ann Radcliffe had gone insane and died of the 'terrors'. In 1816, she was assumed dead, and a compilation of her verse came out, The Poems of Ann Radcliffe. In later life Ann Radcliffe suffered from asthma and died on 7th February 1823. It was claimed in the Monthly Review that 'she died in a state of mental desolation not to be described'.
Roger Lonsdale offers an explanation for Mrs. Radcliffe's early retirement. Based on an 1802 report by Charlotte Smith, Lonsdale sustains her husband restrained her from calling anymore'spirits from the vastly deep' of her imagination . She was also said to have inherited property from her parents in 1798 and 1800, so she may have had less financial motivation, furthermore, she suffered from an old -fashioned uneasiness about being a professional author. From a different perspective J.M.S. Tompkins demonstrates she retired mainly due to disapprobation of the ways gothic writing had trodden. A trend of gothic fiction based on the German type of novel, Schauerroman (horror-romance), introduced blunt terror and heavy handed violence, contrasting with the subtle thrills of the English mode. In order to disassociate herself from the extravagant mob gothic novels had become, she dropped the pen. Nonetheless, the actual reason why Mrs. Radcliffe, having reached such a high degree of success, retired from the writing business, remains more mysterious than any of her mysteries.

Jacques Cazotte e O Maquês de Sade (Daniel Serravalle de Sá, 2008)



www.tropicalgothic.ciberarte.com.br (legacy site) 30/11/2008

Jacques Cazotte

Written by the Frenchman Jacques Cazotte, Le Diable Amoureux (1772) is an endeavour into the sheer surreal reign of dark narratives. 'The Devil in Love' is a necromantic story in which the protagonist, Don Alvare Maravillas, summons the devil in a secret magic ritual. The daemon appears in the form of a monstruous dromedary head, which Don Alvare grabs by the ears subduing it and making it transmutate into an obedient dog. Thereafter, the devil, suposedly in love, starts to follow him everywhere now transformed into a desirable blonde ninfette, Biondetta, who disguises herself as a servant boy. Amidst transmutations, mental confusion and reality distortion, the dream-like and fantastic atmosphere prevails all through the narrative. The dénouement apparently does not affirm reality over fantasy, making the gloom and mystery in this text rather distinct from the literary strategies set by the English Gothic. The paradigms established by this narrative belong to another branch of irrationalist stories which ecchoes in the work of writers such as E.T.A Hoffman and his Der Sandmann (1816), and Die Verwandlung (1912), Kafka's Metamophosis.
Entre todas as narrativas góticas, Le Diable Amoureux (1772), escrita pelo francês Jacques Cazotte, é uma viagem extraordinária ao reino do surreal. "O Diabo Enamorado" é uma história necromântica na qual o protagonista, Don Alvare Maravillas, invoca o diabo em um ritual secreto de magia. Este o atende na forma de uma mostruosa cabeça de dromedário, a qual Don Alvare pega pela orelhas subjugando-a e fazendo o diabo se transmutar em um cãozinho obediente. O demônio, supostamente enamorado, passa então a obedecê-lo e segui-lo por toda parte, agora transformado em uma ninfeta loira, Biondetta, que se disfarça de mancebo escudeiro. Por entre transmutacões, confusão mental e distorção da realidade, a atmosfera onírica e fantástica prevalece ao longo de todo o texto. Sem um desfecho que aparente afirmar a realidade sobre a fantasia, tudo que há de mistério e sobrenatural no texto recebem um tratamento diferente das estratégias literárias utilizadas pelo gótico inglês. Os paradigmas estabelecidos por essa narrativa pertencem à outra vertente de histórias irracionalistas, a qual ecoa na obra de escritores como E.T.A Hoffmann e o seu Der Sandmann (1816), e Die Verwandlung (1912), A Metamorfose de Kafka.
Le Diable Amoreaux (1772)

120 days of Sodom ( Les Cent vingt Journées de Sodome, 1785)
Philosophy in the bedroom (La Philosophie dans le boudoir, 1795)
O criminoso Marquês
Muitos já ouviram falar de Donatien Alphonse François, o marquês de Sade (1740-1814), mais conhecido por ter emprestado seu nome para a psicopatologia humana que se convencionou chamar de sadismo, na qual castigos sexuais são infligidos com a finalidade de gerar o sofrimento da vítima e o deleite do algoz. Entretanto, poucos sabem que pelos crimes de luxúria cometidos contra a sociedade francesa do século XVIII, o infame marquês pagou um preço caro e permaneceu grande parte da sua existência na prisão. Seu trajeto em vida foi errático, a origem nobre e próspera não foi o suficiente para impedir sua desdita. Não obstante, Sade certamente desfrutou de uma vida opulenta e da concupiscência proporcionada por uma posição aristocrática na França anterior à Revolução. Sua família, radicada na região de Provença, era bastante influente e se orgulhava de uma comprovada descendência de Laura, a musa do poeta italiano Petrarca. O jovem Sade, no auge da sua glória, ocupou o posto de capitão na cavalaria durante a guerra dos Sete Anos. Porém, a partir de 1768, um longo revés da fortuna passa a assolar o marquês.
Nesse ano suas práticas conhecidamente devassas lhe renderam uma condenação por sodomia, no processo movido por Rose Keller (ou Kailair), situação da qual ele escapa quase intocado. Posteriormente, suas constantes parties de libertinage o levam a outra condenação, em 1772, no episódio conhecido como o caso das garotas da Rue de Capuchin. Devido a uma série de condições desfavoráveis, nominalmente, os freqüentes excessos do marquês, seus desafetos pessoais, as intrigas familiares e políticas, a própria decadência da monarquia absolutista, parecem se juntar para torná-lo depositário, ou "bode expiatório" dos desassossegos de uma sociedade em mutação. Em 1777, o tribunal o condena, em definitivo, a um encarceramento de quatorze anos, sendo este o período mais longo que permaneceria na cadeia, mas não o último. Mantido quase sempre em condições insalubres, Sade passa um total de vinte e sete anos de sua vida trancado em diferentes prisões e sanatórios da França, dos quais pode-se citar: Miolans, Vincennes, Saumur, Pierre-Enclise, Bastilha, Sainte-Pelagie, Madelonnettes, Saint-Lazare, Picpus e Charenton.
Apesar dos muitos anos passados no cárcere, não foi na restrição da liberdade que o marquês de Sade encontrou melhoramento para sua conduta libertina, ao contrário. Durante o tempo em que permaneceu preso desenvolveu uma forma oblíqua de compreender a Natureza. Seu entendimento revela uma concepção caótica da Natureza e uma orientação fundamentalmente sexual do mundo, produzindo um universo que exalta a mistura entre violência e libido, o qual jamais procura refúgio na espiritualidade ou no princípio divino.
Obrigado à clausura, o marquês passou por um processo de intelectualização na cadeia e se tornou escritor. Despendia o tempo lendo, escrevendo cartas e elaborando suas famigeradas histórias libertinas. Apesar da precariedade da prisão, longe de ser um ambiente propício à leitura e escrita, entre outros livros, o marquês teria lido com atenção O Príncipe (1532), de Maquiavel, L'Homme Machine (1748) de La Mettrie e O Sistema da Natureza (1770) de D'Holbach, apropriando-se das idéias materialistas promulgadas nessas obras para elaborar a sua posição intelectual. Sobre seu período no cárcere, sua sobrevivência a condições muitas vezes insalubres e sua perseverança, o biógrafo Donald Thomas, diz que Sade "emergiu com o espírito intacto e uma chocante filosofia alternativa do comportamento humano que escrevera no longo período de sua reclusão". (Thomas, 1992: 10).
Jean Desbordes estudou a correspondência relacionada ao marquês durante seu encarceramento e publicou tais cartas, as quais, em sua maioria, eram pedidos e solicitações endereçadas à sua esposa, ao seu procurador, às autoridades, mas sem referência direta a assuntos políticos ou intelectuais. Entretanto, o trabalho documental de Desbordes aponta para um crescente amadurecimento das idéias do marquês, evidenciando uma preocupação filosófica imbuída nas cartas. De acordo com o estudioso, uma reflexão sobre as mudanças que se configuravam no período, e sobre a sua própria inserção naquele mundo, começava a tomar forma, ainda que as cartas tratassem de aspectos essencialmente práticos. Segundo Desbordes, a correspondência do marquês ao final da vida evolui de modo a revelar uma posição irredutível no campo da idéias e convicções, a qual estaria indicada na vontade incessante, talvez obsessiva de reescrever e publicar seus textos libertinos e pornográficos (Desbordes, 1968).
Entre os trabalhos mais representativos do marquês, aqui citados os títulos em francês e as respectivas datas de publicação, estão Les Cint Vingt Journées de Sodome (1782), Dialogue entre un prête et un moribond (1782), Justine, ou Les Infortunes de la Vertu (1791), Philosophie dans le Boudoir (1795), Aline et Valcour(1795), Juliette, ou Les Prospérités du Vice (1797), Les Crimes de l'amour (1801). Apesar de ter escritos outros textos e peças teatrais, a reputação de Sade se encontraria nos livros acima, os quais fizeram sua (in) glória no século XVIII.
Ciente das retaliações que poderiam suceder, devido ao conteúdo dos seus romances, Sade publicava sob um nomme de plume e chegou a negar enfaticamente ser o autor de Justine para evitar a guilhotina. De fato, sua previsão se confirmou, pois, de modo geral, os críticos dos séculos XVIII e XIX vilificaram a figura do marquês. Em 1790, a roda da fortuna pareceu dar uma guinada, quando as forças revolucionárias o libertaram da pena imposta na lettre de cachet, assinada por Luís XVI, o rei deposto. Em liberdade, o marquês travou relações sociais que lhe proporcionaram uma recolocação vantajosa na sociedade, foi nomeado presidente da Section de Piques, espécie de distrito da cidade de Paris. Sade poderia ter aproveitado a oportunidade para vingar-se da família Montreuil, que tanto o fez padecer no cárcere, mas sublimou o desejo. Nesse período aproveitou para publicar os livros produzidos na cadeia e tentou emplacar algumas peças de teatro, as quais não obtiveram muito sucesso. Todavia, novas conturbações o levam novamente à cadeia. Com alguma dignidade, enfim, Sade termina a vida, longevo, e supostamente sem remorsos nem culpas, no sanatório de Charenton, em 1814. Apenas no final do século XIX, com a ascensão da Psicologia, é que se propõe um outro ângulo de leitura para obra do marquês. Richard Kafft-Ebing inicia essa retomada do interesse por Sade com o livro Psychopathia Sexualis (1876), no qual cunha o termo sadismo.